sexta-feira, 18 de maio de 2012

Recensão crítica sobre o livro “Uma História da Leitura” de Alberto Manguel


Alberto Manguel nasceu em 1948 em Buenos Aires, Argentina. Actualmente é um cidadão canadiano, por opção. É escritor, tradutor e editor. 
Escreveu numerosos livros baseados em factos reais, como “A História da Leitura”, em 1996 e a “Ilíada de Homero e da Odisseia: Uma Biografia”, em 2008. Redigiu romances em inglês e espanhol, bem como, críticas de cinema, colectâneas de ensaios e, ao longo de vinte anos, editou uma série de antologias literárias de variados géneros e temas, que vão desde o erotismo e histórias gays até à literatura fantástica e mistérios. 
Com a escrita desta obra recebeu em 1998, na França o prémio “Prix Médicis Essai”.



A escrita desta obra é uma grande ousadia por parte do autor. Este escreve uma obra sobre a história da leitura, que já é por si mesmo uma tarefa bastante complexa e, para além disso, ainda utiliza o seu testemunho pessoal como ponto de partida para escrever sobre a história colectiva da leitura.
O livro é uma fascinante viagem pela evolução do leitor e da leitura, que vem colmatar uma enorme lacuna que existia na História da Literatura Internacional, bem como, uma viagem pessoal de um escritor literário, leitor insaciável e entusiasta da história. É um retrato de épocas e mentalidades, o que nos permite observar a evolução da sociedade nos hábitos e relações sociais.
Nesta obra encontram-se fragmentos de experiências de todo o tipo de leitor: o inicial encantamento com aprendizagem da leitura, a leitura compulsiva de tudo o que vemos (livros da escola, cartazes de rua, rótulos de medicamentos), o prazer de acompanhar a multiplicação dos significados de uma palavra e, o descobrir do final de uma história. Relata ainda as conformações da leitura em diferentes épocas, dando o exemplo da história do grão-vizir da Pérsia, que carregava a sua biblioteca quando viajava, colocando-a em quatrocentos camelos treinados para andarem por ordem alfabética. 
Esta obra é dirigida para um público tal como o próprio Manguel, alguém que adora ler e é obcecado com as alegrias, tristezas, segredos, e vícios que possam advir de uma leitura agradável e promiscua. 
O livro está organizado em dois grandes capítulos, tendo cada um dez sub - capítulos. O primeiro capítulo denomina-se "Actos de Leitura", no qual Manguel se concentra em aspectos tão variados como antigos clubes de leitura gregos, leitura de imagens de arte, arquitectura, vitrais da Igreja cristã primitiva e, também, como se tornou a forma do livro tal como a conhecemos hoje. O segundo capítulo denomina-se "Poderes do Leitor". O autor muda de escritores que lêem as suas obras em voz alta ao público para livros compostos por e para mulheres da corte japonesa do século XXI. Posteriormente, muda para os esforços feitos pelos proprietários de escravos, nazistas e da Igreja Católica Romana para interditar os livros e, para concluir, fala do processo de categorização utilizado pelas bibliotecas para organizar materiais de leitura. 
Quem abre este livro e se depara com as inúmeras datas e acontecimentos históricos, talvez se sinta tentado a desistir. Contudo, passado este choque inicial, deparamo-nos com uma escrita rigorosa, mas surpreendentemente fluída. 
Porém, quão boa será a história de leitura do escritor? Ele divaga sobre o espaço e o tempo, examinando apenas os aspectos que mais lhe interessam. Não faz nenhuma tentativa de apresentar uma ordem cronológica para 6000 anos de história de leitura dos livros, o que na minha opinião seria o mais adequado, visto que, o tempo é a característica que melhor define qualquer investigação histórica e científica. Não obstante, Manguel começa por explicar a sua resistência a apresentar uma narrativa sequencial da história da leitura e, no fim, pede desculpas por não ter utilizado uma forma mais cronológica e logica da apresentação das suas ideias. Contudo, utiliza fotografias para ilustrar os textos, o que facilita a compreensão. 
Ao longo da obra são discutidos autores como Borges, Whitman e Fernando Pessoa, que “passeiam” diante dos nossos olhos, apresentados de uma forma próxima, com características bem humanas e universais. Tal facto poderá fazer com que nos sintamos familiarizados com as pessoas citadas, apesar de estas terem vivido há séculos atrás. Na minha opinião, esse é um dos aspectos mais fortes da obra, permitir que nos envolvamos na narração, ao invés de ser uma simples exposição dos factos. Como o próprio autor afirma, “Talvez a história da leitura seja, em última instância, a história de cada um dos seus leitores.” (pág. 35).
A leitura é um hábito, mas também pode ser um vício. Ao longo dos séculos esta prática tem arrebatado pessoas de crenças, hábitos e pensamentos bem diferentes. É agora contada num livro dedicado àqueles que vêem nos livros muito mais do que meras palavras impressas em papel.
Uma História da Leitura é assim um livro que apesar de falar de História, não deixa de ser cativante e até divertido. Esta é uma história que não está acabada, que se constrói um pouco todos os dias quando abrimos um livro e executamos o acto milenar de nos deixarmos envolver pelas palavras.

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