sexta-feira, 18 de maio de 2012

Recensão crítica a Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares




Jerusalém é um romance, tal facto poderá levar-nos a pensar imediatamente que se trata de uma simples composição em prosa e que só os amantes de livros do género irão gostar. A obra mostra-nos que não se trata só de uma história com teor romântico, mas de uma história que trata diversas pragmáticas da nossa vida. A sua particularidade em relação aos outros romances é o facto de este possuir uma série de pequenos capítulos no decorrer da narrativa, com um cruzamento um pouco complexo de histórias e personagens. Por vezes é de difícil compreensão devido aos constantes saltos temporais existentes. 
A perspectiva do autor sobre a morte foi algo que me fascinou imenso porque de um assunto que cria tanta controvérsia nas pessoas, que nunca sabem quando vão morrer, este tem uma visão muito particular e distinta. Cria uma espécie de “fórmula” para a tornar menos assustadora e para tentarmos perceber o dia em que chegará: “[…] ‘qualquer que ele seja, demore muito ou pouco, será o dia em que individualmente o corpo atinge o zero, anuladas as cargas positivas e negativas recebidas e enviadas para o mundo’.” (p. 214). Cria também uma teoria bastante interessante que explica o possível fim da História de um povo: “ […] ‘ povo A/ emissor de sofrimento’ e o mesmo ‘povo A/ receptor de sofrimento’ estivessem equilibrados ‘com exactidão e ao pormenor: número de indivíduos de um lado e de outro.’ […] quando se atingisse este equilíbrio: o zero como resultado do balanço entre violência recebida e exercida.” (p. 212)
O próprio enlace da história é caracterizado por um fim trágico composto por dois acontecimentos que por coincidência se cruzaram numa noite. Ambas as características, morte e fim trágico, são explicadas pelo facto de este livro estar inserido num conjunto de romances do autor (“Um Homem: Klaus Klump”, “A Máquina de Joseph Walser” e “Aprender a rezar na Era da Técnica”) cujo tema principal é o mal, denominado o “Reino” ou “Livros Pretos”.
Muito antes de jornalistas falarem sobre a religião, o escritor debruçou-se sobre este tema de forma breve. Cita por várias vezes a Bíblia e suas expressões: “[…] a Bíblia com diversas folhas agrafadas entre si, folhas finíssimas com consecutivas palavras santas, como é possível tantas palavras seguidas serem consideradas santas? […]” (p. 229); “São Mateus 4, 1: «Então o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo Demónio. Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, sentiu fome.»” (p. 230). 
Apesar de considerar este um livro excepcional e muito particular, no sentido em que é diferente dos livros a que estava habituada a ler, acho que é um pouco explícito e até mesmo exagerado em termos sexuais: “ […] uma mulher deitando sangue do nariz, nua, numa cama, com as pernas abertas, exibia ostensivamente a vagina.”; (p.23) “Procura pêlos púbicos, Theodor, uma compensação púbica […]”; (p.24) “Tendo os pêlos púbicos rapados por completo, aquela mulher exibia os genitais, enrugados […] ao lado daqueles genitais obscenos, explícitos, vermelhos, velhos […]”. (p.245)
Deixou-me a reflectir sobre o verdadeiro valor das pessoas, que por vezes banaliza-mos sem dar conta por distracção ou por desconhecermos o verdadeiro “eu” das pessoas. Também é demonstrado que os objectos têm um valor muito para além daquele que lhes deveria ser dado, é uma reflexão que todos devíamos fazer para nós mesmos: que valor terá isto para mim? É uma pergunta para a qual nem sempre temos resposta, mas sobre a qual deveríamos reflectir mais vezes, é útil parar para pensar, para saber, conhecer, para não ter de dar só valor às coisas quando as perdemos. Mostra uma realidade actual, a exclusão social, feita pela sociedade e endurecida por algumas pessoas, efectuada aos indivíduos “diferentes”, mais especificamente com alterações psicológicas, e a sua posterior auto-exclusão. 
Faz-nos perceber que a morte e as tragédias podem acontecer na nossa vida quando menos esperamos, nunca ninguém está preparado para a morte, ou pelo menos completamente preparado. Veja-se que o ciclo da vida se inicia com o nascimento e termina com a morte, algo óbvio, mas poderíamos viver centenas de anos que nunca há preparação possível para a morte, principalmente quando toca aos nossos ou aos que nos são próximos. Podemos viver com a ausência de alguém, mas vamos sempre pensar no facto de esse alguém existir pois o pensamento é eterno, a vida é que não. Para concluir, fiquei fã do escritor Gonçalo M. Tavares. É fantástico que um homem tão jovem escreva de uma forma tão complexa, a qual demonstra tanta sabedoria, habitualmente visível nas pessoas mais velhas. Deixa-me com imenso orgulho que seja português pois sei que nem sempre se dá o devido valor aos autores de língua oficial portuguesa e, que neste caso, este mesmo autor seja tao reconhecido internacionalmente, tendo mesmo ganho uma série de prémios, entre os quais se destaca: “Prémio LER/ Millennium BCP (2004)”, Prémio Literário José Saramago (2005)” e ainda “Prémio Portugal Telecom de Literatura (2007- Brasil)”. 















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