sábado, 9 de junho de 2012

Jovens procuram desesperadamente viver da música em Portugal



Todos partilham a mesma paixão: a música. Têm como principal objectivo deixar a sua marca no panorama nacional de música e deixar de ser meros artistas “sem nome”.

O fim-de-semana, normalmente tão esperado pela maioria das pessoas por ser sinónimo de descanso, é para Carolina, Tiago, Rui, João e Rui Sérgio, sinónimo de trabalho. É principalmente à sexta, ao sábado e ao domingo que trabalham.
Passando à apresentação destes cinco jovens músicos portugueses temos: Carolina Azevedo (18 anos), aluna do 12º ano na Escola Básica e Secundária de Ourém, frequentou o Conservatório durante seis anos no curso de clarinete.       
João Catarino (18 anos), aluno na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa começou a aprender a tocar guitarra com o pai, aos 13 anos. Apesar de ter frequentado as aulas de piano, formação musical e classe conjunta durante um ano no Conservatório, obteve a restante formação, que hoje detém, sozinho e com amigos.
Tiago Morgado (23 anos), aluno de Engenharias Aeronáuticas no Instituto Superior de Educação e Ciências em Lisboa, iniciou a sua formação aos nove anos. Frequentou a Banda Filarmónica de Ourém e o Conservatório e, hoje, sabe tocar órgão, clarinete, viola, guitarra clássica e baixo.
Rui Reis (42 anos), licenciado em Engenharia de materiais, não tem qualquer tipo de formação musical. Tudo o que sabe tocar na guitarra aprendeu sozinho.
Rui Sérgio Oliveira (25 anos), licenciado em Formação Musical na Escola Superior de Música de Lisboa, principiou a sua formação aos oito anos na Banda Filarmónica de Ourém, frequentando, posteriormente, aulas de piano, formação musical e coro no Conservatório. Após oito anos obteve o curso completo de piano. No seu tempo o Estado apenas apoiava as escolas de música e os conservatórios. Em 2002, o Estado criou um sistema intitulado ensino articulado, cujo é uma forma de frequentar o ensino da Música. O Conservatório e a escola regular articulam - se entre si, de forma a aliviar a carga horária do aluno e a não duplicar as suas disciplinas. Nesta modalidade, o aluno frequenta um plano de estudos especificamente adaptado, sendo que as disciplinas do Conservatório são integradas na matriz curricular da escola regular e os alunos não têm qualquer tipo de encargo económico. 
 Apesar da paixão em comum, todos se encaixam neste mundo de formas distintas. Carolina Azevedo destaca – se dos restantes, pois é a única que não toca em bares para ganhar a vida. Actualmente faz parte de uma orquestra de sopros, que apenas faz concertos em auditórios, cinemas e anfiteatros. No entanto, tem uma característica em comum com Tiago Morgado e João Catarino. Os três debatem – se diariamente com a luta de conjugar os estudos com a música. Tiago Morgado admite que requer uma grande organização de horários. Durante a semana tem que conciliar os ensaios regulares das quatro bandas a que pertence, juntamente com as aulas. E ao fim-de-semana, ao contrário da maioria dos estudantes que o aproveitam para estudar, toca em bares. Por outro lado, João Catarino revela que essa conjugação nem sempre é fácil, pois tem que fazer opções, que nem sempre são as mais favoráveis. Durante a semana tem os ensaios para o projecto em que se encontra actualmente de músicas originais e aos fins-de-semana tem as actuações. Confessa que é uma “luta constante entre o pensamento e o coração e, por vezes, é a escola que fica para trás pelo amor à música.” Pretende terminar a sua licenciatura em Direito, paralelamente com a vida artística, porque sabe que viver da música em Portugal é muito difícil. “No nosso país é uma questão de sorte ou oportunidade, e estes são factores que nem sempre existem”, relata com alguma tristeza. Carolina Azevedo reconhece que o mais complicado é conseguir manter um bom desenvolvimento em ambas as actividades, pois a carga horária é muito pesada.

Para Rui Reis, apesar de já ter concluído o seu percurso académico, também se torna complicado conjugar a música com os restantes aspectos da sua vida. Adepto da agricultura de subsistência e dos produtos naturais relata em tom de brincadeira, que durante a semana o tempo é dedicado a “cuidar da minha horta e das minhas galinhas”. Conjuga este modo de vida com os ensaios regulares nas três bandas de que faz parte, com a prática do instrumento, bem como, o leccionamento da iniciação à formação da guitarra. Já teve outros empregos em nada relacionados com a música, que a tornaram um passatempo, mas hoje em dia é o seu meio de sustento.


Encontram-se neste momento a gravar um EP (mini-cd com cerca de dez músicas) patrocinado pela Farol Produções. Para além de estarem em fase de gravações, estão também a ensaiar para as actuações que vão tendo. É sem dúvida uma das fases mais importantes das suas carreiras, o que provoca uma grande ansiedade e nervosismo. Na estreia do EP vai estar presente Pedro Abrunhosa, o que faz subir ainda mais a fasquia do momento. Nada pode falhar e vão dar tudo o que estiver ao seu alcance! Sobre este acontecimento que, os vai lançar no mundo da música em Portugal, conta que “o futuro é incerto. A vida de músico é aproveitar o dia-a-dia como se fosse o último. É viver o momento e tentar transmitir às pessoas o melhor da nossa música.”                                         



A situação de Rui Sérgio Oliveira é completamente diferente das restantes. Vive para a música e esse é o seu meio de sustento. Toca actualmente em cinco bandas, dá aulas particulares de guitarra e piano, e lecciona educação musical no Colégio São Miguel, escola onde estudou. A sua semana fica então resumida a durante o dia dar aulas e à noite estudar música e a ensaiar com as bandas das quais faz parte, sendo que aos fins-de-semana tem os concertos. Dá aulas pelo dinheiro, mas toca em bares pelo gosto, relatando que “tendo em conta que não há grandes apoios aos músicos executantes de bandas, torna-se necessário recorrer a outras actividades, tais como as aulas de música, para puder ter maior sustentabilidade a nível económico”. O lucro que tem a tocar em bares é muito pouco porque os instrumentos, as deslocações e o material de som é todo pago por eles e estes têm um preço elevado. 
Apesar do número crescente de jovens licenciados no desemprego, Rui contrapõe dizendo que “não há falta de emprego na área da formação musical” e que até “há falta de professores qualificados nas escolas”. Por ano recebe várias propostas de trabalho, mas é com as bandas que quer seguir o seu percurso. Apenas tirou a licenciatura para, em caso de falha dos outros recursos, ter algo em que se agarrar. Um inquérito feito pela Universidade de Évora em 2004 veio provar precisamente o mesmo. O estudo incidiu na inserção na vida activa dos recém-licenciados em música e concluiu que relativamente ao tempo de espera para a obtenção de emprego, os dados obtidos no inquérito revelam que “os licenciados acedem ao primeiro emprego com uma relativa rapidez” afirmando que “5/6 respondentes obtiveram emprego antes da conclusão do curso e 1/6 conseguiu emprego até um mês após a conclusão.” Os licenciados em Música tiveram acesso ao primeiro emprego através de um conjunto diversificado de meios como: convite, local onde realizou o estágio/trabalho de fim de curso, concurso público e conhecimentos pessoais.
Um dos mais recentes projectos de Rui Sérgio é uma banda instrumental portuguesa, chamada “GBGBG”, feita por portugueses, mas num estilo universal. Tanto este como os outros projectos de que faz parte não têm qualquer tipo de apoio por parte do Estado. Os músicos são dos poucos trabalhadores no mundo que têm que comprar os seus instrumentos de trabalho e, no caso português, têm que os compram sem qualquer tipo de contribuição do Estado, como por exemplo um subsídio. Rui considera que “o Estado ainda vê a música como um passatempo e que, em comparação a outros países do mundo que apoiam os seus músicos, a música em Portugal ainda não é considerada relevante para a economia”. Contudo as bandas têm que se colectar nas Finanças, como qualquer outra actividade. Os recibos que deviam ser exigidos pelas entidades que os empregam, como por exemplo os bares, não iriam cobrir as despesas que têm. Para além desses recibos, é indicado no site do Sindicato dos Músicos como obrigatório, tanto para as bandas como para os donos dos bares, assinarem um “contrato de execução de obras musicais”, para que todos os direitos e deveres sejam respeitados, sem excepções. Os cachets que recebem não são muito elevados, devido principalmente à conjuntura actual e variam consoante a deslocação, o tempo de actuação e o tipo de evento. No entanto, é apresentada no site do Sindicato dos Músicos uma “tabela de cachets mínimos”, que não é de todo respeitada. 
 João Catarino, para além de pertencer a um grupo de baile, que toca música tradicional portuguesa e que por isso chama mais gente, faz parte também de um projecto de músicas originais, todas da sua autoria, chamado “Capitão Ortense”. Formou-se a partir de uma outra banda de covers de rock chamada “Re-verb”, que já terminou. Esta banda permitiu-lhe começar a tocar em bares, a ganhar conhecimentos e experiência para “transportar” para os originais. Deu-lhe dinheiro para adquirir os instrumentos, mas ao mesmo tempo uma “satisfação momentânea”, pois baseava-se apenas em ensaiar, tocar e receber o dinheiro. Confessa que “aprendi o conceito sério de banda, o que era preciso fazer para um projecto ter seriedade”. Pelo contrário, a banda de originais requer mais trabalho, mas um gosto maior porque “tenta chegar-se ao maior número de pessoas a música portuguesa”. Brinca ao dizer que considera a banda de covers “um filho adoptado” e a banda de originais “um filho legítimo”, porque “nos dá a possibilidade de transmitir tudo o que quisermos, uma determinada mensagem, o que nos proporciona um maior reconhecimento”. A sua banda de originais tem um grande prestígio na cidade porque o ano passado venceram o “Festival dos Chícharos de Santa Catarina da Serra”, o “Concurso de Bandas do Arte Caffé” e partilharam palco com João Pedro Pais, nas Festas da Cidade de Ourém. A sua estratégia é “tocar uma vez por mês onde vão mais pessoas e fazer o melhor, para elas aderirem e não se cansarem”, apesar de ter noção que “se ganha menos dinheiro com os originais pela falta de conhecimento das pessoas e o medo de investir na novidade”. Afirma que escreve sobre as coisas em que acredita, para mais tarde não existir a hipótese de arrependimento. Fala nas suas músicas sobre a retrospecção do próprio valor que as pessoas deveriam dar às coisas. O objectivo da sua escrita é “fazer com que as pessoas se identifiquem com o que ouvem, aperceberem-se de que já lhes aconteceu o mesmo e que não estão sozinhas”.
Quando confrontado e à semelhança dos outros quatro jovens músicos, não tem qualquer tipo conhecimento sobre a existência de alguma instituição que os apoie financeiramente, nem mesmo da existência do Sindicato dos Músicos. Os músicos em Portugal são representados por um Sindicato e que existiam no nosso país associações musicais, fundações de carácter musical, centros culturais, auditórios e museus de música, que não são mais do que meros estabelecimentos onde se exerce a prática da música.
 Apesar de alguns destes jovens terem seguido percursos académicos em nada relacionados com a música, todos pretendem continuar neste mundo. Vêem-se daqui a dez anos de formas bem distintas no ramo da música. Carolina Azevedo pretende licenciar-se em Formação Musical, para posteriormente puder dar aulas em conservatórios, e quem sabe mais tarde tirar o curso de clarinete. Tiago Morgado, que tem como duas grandes paixões a música e os aviões, quer continuar a vida toda na música, mas se posteriormente não conseguir alcançar os seus objectivos neste ramo, quer pilotar aviões.
 Rui Sérgio não quer tocar com artistas conhecidos, pois quer lutar pelo que acredita e levar as suas ideias até onde elas puderem ir. No futuro, caso as coisas não resultem, irá optar por acompanhar um artista, apesar de não se identificar com nenhum artista que toque actualmente em Portugal. Tem como perspectiva imaginária tocar com uma das bandas que criou pelo mundo inteiro, a dar a conhecer a música portuguesa; e como perspectiva da realidade deseja dar aulas de música numa escola, apesar de não se sentir tão realizado profissionalmente, como na perspectiva anterior.
João Catarino inclui nos seus planos de futuro constituir família e tem noção que tocar em bares não vai ser suficiente para ter a estabilidade financeira necessária, por isso, investe na sua licenciatura. Defende que os “Capitão Ortense mais que uma banda é conseguir perceber que através de uma amizade se conseguem retirar diferentes resultados, traduzidos em sonoridades diferentes e letras, que tentam explicar o dia-a-dia de cada um que é tão difícil.”
      



1 comentário:

  1. Ofereci-te o selo Liebster award, passa no meu blog "www.designavulso.blogspot.pt" para veres e responderes :) beijinho*

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