"Um salto em frente
Do
campo para a cidade. Foi este o salto de
Sara Savery, 18 anos, para abraçar o sonho de apresentar o telejornal.
A jovem estudante natural de Ourém, distrito
de Santarém, sentiu na pele a mudança para um dia-a-dia totalmente diferente
daquele a que estava habituada na pacata freguesia da Nossa Senhora da Piedade.
O curso de Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social é, para Sara, a
porta de entrada no mundo da televisão. Mais concretamente, o que a conduz é a
ambição de “apresentar o telejornal desde que me lembro de ser gente porque
gosto do protagonismo mediático”. “O maior choque da mudança para Lisboa acabou
por ser a ausência dos meus pais”, revela Sara que mora com duas outras jovens
trabalhadores “que mal vê”. Esta ambição mediática levou o seu pai, António,
carpinteiro de profissão, a procurar emprego noutras paragens: “há cerca de um
mês foi para França; o sector em Portugal está estagnado, não há ofertas de
trabalho e os salários são extremamente baixos para as necessidades da minha
família”, assegura Sara. Para além das propinas, a estudante tem ainda de
suportar todos os custos de morar praticamente sozinha.
O
cancelamento das obras da ligação Madrid-Lisboa do TGV levado a cabo pela Troika fez-se sentir na família de Sara:
“o meu pai esteve um ano em casa depois de cancelarem as obras”.
“Ao
pé da minha casa em Ourém, há muitos idosos que vivem da terra porque alguns
chegam a ter pensões que nem chegam a cem euros” – o congelamento das pensões
levado a cabo pelo Governo afecta uma vez mais, ainda que indirectamente, a
esfera da vida de Sara. O cenário de recessão económica reflecte-se na vida de
Ourém: “muita gente apenas lá vai para dormir pois trabalha, na sua maioria, em
Leiria”. A existência de cidades-dormitório parece começar a alastrar-se para o
interior cada vez mais desertificado do país."